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Por onde anda?

“Cara Queen Bitch;

Já se passaram longos meses desde nossa última consulta. Confesso que sinto falta das nossas conversas e estou preocupado com o seu repentino sumiço a longo prazo. Eu havia notado certa melhora em seu comportamento desde as últimas sessões, incluindo a que você disse que gostaria de ter sangue nas mãos, falar sobre tais assuntos com um completo… desconhecido, já é algum avanço.

Por favor não abandone o tratamento definitivamente. Precisamos marcar uma nova consulta. Entre em contato assim que receber este recado.

Espero que esteja mantendo sua meditação e não exagerando nos remédios.

Sem mais;

Dr. XXXXXXX
CRM XXXXX”

Saudades Doutor?

Não te ensinaram na faculdade os perigos do envolvimento emocional com os paciêntes? Acho que aí há uma certa transferência de posições misturada com carência afetiva, seria eu o doutor e o senhor o paciênte? Afinal quem precisa de terapia?

Onde estou?

Não sei, mas trago uma excelente notícia.

Uma dica:

Adorei a boneca que deu de presente a sua filha no aniversário de sete anos.

Meditação? Eu não preciso disso, já não posso dizer o mesmo dos remédios, aliás, estou precisando de mais receitas, como já lhe disse diversas vezes, as famárcias estão exigentes quanto a tarjas preta.

Contato feito.

Satisfeito?

Receio que este seja o anúncio de um possível retorno… pois é doutor, novo endereço… Creio que temos muitas consultas pendentes.

Muito mais;

QB.

Enfim…

Doutor,

peço relutantes desculpas pela ausência nas últimas sessões, não que eu me importe em dar desculpas esfarrapadas, apenas foda-se e aceite que estou, no mínimo, me desculpando por ter faltado. De qualquer forma, não deixei lhe atrasar nenhum cheque, contente-se.

Estou, realmente, cansada e decepcionada com tudo e todos. Eu desisto…

Desisto de tentar. Qualquer coisa. De buscar e se decepcionar. De fugir e não conseguir se esconder. De procurar soluções e se frustrar ao descobrir que elas de nada servem ou apenas servem para gerar mais problemas.

Desisto da humanidade. A humanidade está fadada ao fracasso inexorável. Por mais que teimemos em prolongar nossa permanência nefasta no planeta, um dia perceberemos que o mundo estará bem melhor sem nós. Sim, doutor, eu me incluo nessa turba. E te incluo. A todos nós. Você também, meu caríssimo leitor ignóbil que vem aqui sem ser convidado. Sua mãe também. Toda sua família. E a minha. E daí?

Desisto também de tentar me matar, seja rápida ou lentamente. Apenas sigo em frente estagnada. Desisto de sentir raiva ou tristeza ou mesmo qualquer sinal de alegria, na verdade, raiva eu não deixo não… de qualquer forma eu desisto de procurar sentido numa realidade niilista. De mijar dentro do balde. De respeitar qualquer lei. De batalhar dia a dia tentando prolongar minha existência medíocre. De ajudar os outros a prolongarem suas. Fodam-se todos e assim está bom pra mim, cada um pensando em si, ou nem pensando, como quiserem.

Não, doutor. Não desisto da vida, pra ser exata. Desisto de me preocupar em existir.

E, na boa, pouco me interessa sua opinião ou a de qualquer um a este respeito. Foda-se se parece “emo” ou qualquer outra merda rotulada por cabecinhas limítrofes, cada um tem o direito de pensar a porra que quiser. Chafurdem em seus raciocínios lógicos. Simplesmente cansei. Não tento mais nada. Sou um subproduto do mero acaso e é com isso que arrastarei meus dias, ou não, tanto faz. Chega de contas infinitas e ganhos limitados. De psicanalistas sem respostas e malucos sem perguntas. De idiotas que não entendem piadas ou que as levam ao pé da letra. Eu cansei e estou entregando os pontos.

Eu abraço a insanidade e a beijo de língua.

Pau em violenta ereção sem nenhum motivo aparente.

Pega e chupa quem quiser.

Pouco importa.

Eu desisto.

E ponto final.

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