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oh mani padme hum […]

Escorada no beiral com o crachá balançando conforme o vento quente que arranhava seu rosto misturado a fumaça do cigarro que comprará naquela manhã, o dia parecia ter começado com o pé esquerdo. O arranhado na bochecha erá de um vermelho vivo e ainda escorriam algumas gotículas de sangue, não era grande o suficiente para deixar uma cicatriz mas era o suficiente para deixar claro que não foi só o dia que amanheceu mal o seu gato recém adotado também. Entre uma tragada e outra o turbilhão de pensamentos só aumentava de forma que ela não conseguia nem ao menos focar em um para se irritar ou chatear, estava tudo lá ao mesmo tempo, motivos de mais, motivos de menos.

Virou-se para apoiar-se dando as costas para a vista plena que tinha, observando o prédio sem cor onde trabalhava, ignorou vilmente toda área natural que tinha para observar a magnitude da arquitetura moderna – não tão moderna mas ainda assim útil. O prédio havia sido construído a anos e ela se focou em imaginar quantas pessoas passaram por ali em todo esse tempo, quantas vezes alguém quebrou uma porta ou janela do prédio e se perguntou mentalmente no meio de toda a fumaça quantas pessoas haviam machucado o prédio por dentro se seria cabível que ela o comprasse com ela. Sólido, frio, rígido e imponente por fora, mas tão frágil e quebradiço por dentro. Tão longe e alto seu pensamento voou que ela imaginou quantas pessoas e tempo eram necessários para que os reparos do prédio fossem feitos, a pergunta no momento era se ela teria tantas pessoas e tempo disponível a cada vez que por dentro se ferisse.

Observou todas as pontas externas do prédio, bem cuidadas e pintadas recentemente e não conseguiu deixar de compara-los novamente. Sua maquiagem era exatamente da mesma cor, tinha até um arranhão de seu recém adotado gato que parecia bastante com uma pequena rachadura na fachada do prédio, mostrando-os tão sensíveis por trás da carapaça de durões. Riu sozinha, com o vento e a fumaça. Imaginou se falaria isso para a psicologa, claro se ela fizesse terapia. Imaginou ainda o prédio fazendo terapia, reclamando de tantas pessoas que o machucavam, tratavam como lixo e batiam suas portas e janelas em momentos de raiva – aquilo deixava cicatrizes, mesmo que silenciosas, ainda deixava.

– Bom dia – disse o jovem senhor que estava varrendo as folhas secas que o outono teimava em deixar cair acompanhado de um grande e largo sorriso em meio a fumaça dos tragos da menina.
– Muitas folhas não é mesmo?
– Sim, mas eu gosto.
– Ah é?
– Sim, a natureza é maravilhosa.
– Prefiro a arquitetura – observou a menina pensando em todos seus recente pensamentos.
– Eu prefiro os dois. Veja, bem la no alto da sacada do segundo andar dentro daquela rachadura que estraga a fachada do prédio está florescendo um pé de flor.

E a menina não conseguiu mais uma vez deixar de observar o quanto era parecida com o prédio em que trabalhava, mesmo machucada e com raiva de seu gato o amor e cumplicidade que dali nasciam era extremamente perfeito, era algo interno que mexia com seu exterior, abriu o sorriso e jogou a bituca de seu cigarro junto ao lixo do senhor sem se despedir para sempre deixou apenas um até logo. E lembrou que por mais que as feridas internas demorassem para serem curadas ou demandassem pessoas de mais, o período de reformas logo acabaria e ela assim como o prédio estaria pronta para ser usada machucada novamente sem perder nenhum de seus alicerces.

Consulta #4 – Breathe

Doutor;

Eu abri os braços e fechei os olhos. Deixei que o cortante vento daquela fria noite de outono tocasse o meu rosto enquanto ainda segurava nos pulmões a fumaça do cigarro. Permiti ficar um pouco tonta com a sensação da nicotina percorrendo o meu sangue e então suspirei, só para puxar novamente o ar e encher os pulmões como se pudesse explodir a minha caixa torácica com a violência que ele invadia o meu peito.

É incrível, não é mesmo? Como o nosso corpo reage e trabalha sem que ao menos precisemos pensar a respeito, mas às vezes nos colocamos tão fundo no piloto automático que começamos a esquecer quem somos, o que queremos ou o que gostamos. Talvez eu tenha entrado neste labirinto, o que me faz lembrar também que talvez não seja a primeira vez. E o único momento em que consigo trazer a mim mesma aquela sensação de que ainda existe alguém vivendo aqui dentro, é quando me permito dar aquela profunda tragada. Quando a cabeça bambeia e os pensamentos se tornam leves.

Quando foi que caímos neste lastimável ciclo de obrigações? Acorda, levanta, come, trabalha, estuda, dorme. Quando foi que paramos de nos permitir a viver? Quando foi que todos os sonhos foram enterrados e toda aquela sede do mundo foi simplesmente apagada como a chama cansada de uma vela no fim da vida? Não somos tão pequenos a ponto de nos permitir zerar, ao mesmo tempo que se isso acontece, o mundo não vai parar para nos esperar, e as pessoas continuam seguindo suas vidas, enquanto você permanece pra trás, talvez sozinho ou talvez com alguém que ainda te suporte. Mas a velha pergunta martela a sua cabeça: até quando?

Chega uma hora que a gente simplesmente cansa, mas não de viver! Cansa de se abandonar, de estar cem por cento no piloto automático, cansa de se desconhecer e de se afundar. Mas este buraco não tem fim, ou você já chegou tão fundo que mal consegue distinguir a inércia? Chega uma hora que não dá mais.

Então, eu fechei os braços, abri os olhos e decidi… Newton que se cuide, porque suas leis não me prendem mais.

Cinza como fumaça 

Hoje pela manhã enquanto acendia meu já tradicional e batido cigarro para esperar o ônibus que mais uma vez estava atrasado – acredita? – me deparei com uma cena na minha cabeça, talvez seja uma dessas que eu nunca mais vou esquecer.

Seus olhos verdes quase acinzentados de sono ao me dar bom dia se espreguiçando pela cama enquanto eu corria por estar atrasado e você achava graça, tudo bem que aquela hora da manhã eu poderia xingar toda uma geração da sua família que você ainda acharia graça. Talvez nunca tenha dito a ti que eu quase nunca tropeçava tantas vezes seguidas a não ser para cair no seu colo e sentir seu abraço de urso manhoso me pedindo para ficar mais um pouco contigo na cama, e mesmo sofrendo por dentro eu dizia não amargamente – mas a verdade é que eu adorava aquele abraço matinal, do seu jeito sonambulístico fazendo aquilo no automático me dava a sensação de realidade.
Enquanto sacudia a cabeça para tirar essa imagem mental e tentando me concentrar em uma alguma outra monstruosa, lembrei-me do dia que estávamos no parque de diversão e de como você discutiu severamente com um jovem senhor por conta daquela última pelúcia da Disney, o quanto você gritou e brigou porque queria me agradar, foi a primeira vez que vi indícios de violência em você e na época achei lindo pois você estava fazendo de tudo para me agradar, mesmo sabendo que eu já tinha várias outras variações daquele ornitorrinco verde.

Experimentei nessa manhã sensações múltiplas que iam de amor à ódio em fração de segundos tal como seu carro ia de zero a cem no meio da rodovia, no rosto eu poderia também sentir o vento batendo cortando mas assim como essa manhã era algo que não me importunava pelo contrário me mostrava o quão vivo ainda estava. A adrenalina na época era o que me movimentava trazia o brilho nos olhos, talvez hoje olhando meu reflexo nessas poças d’água eu possa dizer algo sobre brilho nos olhos, ou talvez seja apenas o reflexo diluído dos postes da rua que teimam em não apagar em manhãs chuvosas.
A pouco tempo atrás eu provavelmente falaria que em cada poça dessa rua teria uma lagrima minha, mas não hoje.
Não mais.
Não por você,
mas caso pudesse lhe dizer algumas coisas cara-à-cara diria que resolvi seguir o seu conselho e entrei nas aulas de pintura, mesmo a contra gosto, e logo meu primeiro trabalho foi o de representar algo que retratasse uma saudade que apertava o peito, inacreditavelmente desenhei teus olhos verdes quase acinzentados de sono, a única coisa sua que guardei dentro de mim após todos esses anos. Os mesmo olhos que me diziam com quem eu estava, as cores que sibilavam de acordo com seu humor. Os olhos que me denunciavam uma mentira, ou fantasiavam um futuro junto aos meus. A imensidão da honestidade blindada nessa casca sem amor que você se tornou, nesse homem sem sonhos, sem perspectivas sem coragem alguma. A única coisa que eu amei que permaneceu, talvez o motivo de eu te-los desenhado é porque sentia falta sim do homem que costumava usa-los e não do último que conheci que os possuía, complexo mas nem tanto.

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