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  • Author: Gabriel Alcalo

Você não vai estar lá

Se eu te chamar para um café? – Dai me lembro que você não gosta. Pediria uma cerveja dessas comuns mesmo de latinhas vermelhas ou amarelas, abandonaria minha insana vontade de conhecer coisas novas em troca de uma conversa séria com tom de atoa na mesa de bar contigo – mas parei de beber a quase um mês, não que isso lhe importe de alguma forma. Poderíamos tomar então um suco, todo mundo gosta de suco, existe uma infinidade absurda de cores e sabores algum deles deve ter a capacidade de te agradar de alguma forma que eu não sou.

Sente-se acomode-se e me escute, sem mais um pio por favor apenas escute. Escute tudo que eu tenho a lhe dizer moleque, pare de fingir inocência quando é tão culpado quanto eu nesse cartório de vênus e pelo amor de Deus não me deixe pedir um maço de cigarro, pois você sabe tão bem quanto eu que eu também os larguei de lado. Larguei porque estou abandonando tudo que me faz mal, parei com outros hábitos que não vem ao caso, mas me diga você, por trás desse seu sorriso torto e amedrontado o que faria estando no meu lugar?

Contrario meus instintos todas as vezes que dou uma brecha e deixo que se acomode, todas as vezes que me deixo enganar pela sua voz doce tal qual um pirata prestes a afundar o navio por conta de uma sereia traiçoeira, mas veja bem moleque não não estou te chamando de sereia, não é um elogio, mas com certeza de traiçoeiro, com toda essa fachada de inocência travestida de malicia como um lobo calmo esperando o momento certo para atacar o cordeiro. Diga para mim, por detrás desse nosso sorriso fraco e falho quais os motivos você acredita serem o suficiente para me ancorar ao seu lado? Ou melhor, porque diabos eu não devo deixa-lo apodrecer junto com todo o álcool e nicotina que tirei da minha vida?

Esse é o nosso problema – talvez só meu – acreditar em tudo que você disser, quantas vezes forem necessárias até não ser mais, você me entende? Consigo resolver uma equação de schrödinger em cerca de dez minutos, aprender a me comunicar em russo ou mandarim em mais dez, fazer viagens astrais e sensoriais enquanto discuto filosofia numa roda de maconheiros, aconselhar cerca de dez pessoas da forma correta e até mesmo conseguir adivinhar os seis números da mega-sena que me deixariam milionário, mas não consigo de forma alguma me decidir sobre o que fazer contigo, você entende a gravidade deste meu dilema? Eu me irrito, me julgo, me xingo e inclusive me castigo das mais variadas formas que deixariam Mazikeen deslumbrada, no entanto por mais que eu ensaie diante do espelho tudo que tenho para te dizer, as linguagens verbais e corporais e até mesmo a força que eu adoraria desaprender a controlar, não consigo usar nenhuma das formas ensaiadas. Não consigo, porque gosto de você moleque. Porque para mim você se tornou uma incógnita, uma equação mal resolvida, uma música mal acabada, uma melodia quebrada, uma porca sem parafuso, um paradoxo, um sentimento, um desastre.

Tenho a péssima mania de tentar antecipar meus passos, como estou fazendo agora, e nem ao menos sei se você vai seguir meu plano, meu script ou se estará disponível para tomar esse suco. Os médicos diriam que faz parte dos transtornos de ansiedade, eu digo que é só mais uma parte do meu tormento. Meu tormento em amar e achar nunca ser correspondido, em teimar em querer resolver esses quebra-cabeças que fazem o mínimo sentido.

Queria te dizer isso tudo pessoalmente, mas sei que me perderei no momento em que vir o seu sorriso e isso tudo só vai voltar quando colocar minha cabeça no travesseiro e os planos começarem a vir, e eu perceber que por mais que eu queira:

Você não vai estar lá.

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