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  • Author: Gabriel Alcalo

Completamente. Completamente Vazio.

Hey Doctor,

Faz algum tempo desde a minha última carta, tem sido tempos difíceis o senhor não acreditaria mesmo se eu contasse, tudo tem acontecido tão rápido, eu mal consigo entender a velocidade e intensidade disso tudo. Ao mesmo tempo em que me sinto completamente bem e leve, me sinto mal e pesado. É como o senhor sempre previu, minha bipolaridade ataca novamente, mesmo eu tendo deixado as drogas, ou melhor, os seus remédios para trás.

Me sinto muito perdido as vezes, como se tudo que eu buscasse fosse estupidez, o Senhor seria capaz de me compreender? As vezes sinto essa estranha vontade de correr até dar a volta ao globo, completamente, como se fosse possível a um mortal como eu. Entretanto existem momentos em que eu gostaria de sentar e observar o sol, a luz e calor que ele nos fornece, é realmente inacreditável toda essa minha plenitude as vezes.

Eu gostaria de entender sobre tudo isso, considerei de verdade estudar os seus ensinamentos e até ingressar numa faculdade de psicologia, mas lá não seria um bom lugar para mim, seria bem como o senhor sempre me dizia eu viraria apenas uma cobaia dos meus companheiros. Sou um baú cheio, e repleto, de traumas e sentimentos. Ora ou outra algum pula pra fora, como de costume.

Meu sorriso, de tão forçado começou a desgastar Doutor. Eu gostaria de encontrar novamente aquele elixir, maligno, do amor para estampar um sorriso real no meu rosto, mesmo que por pouco tempo. Eu andei procurando, ah como andei. Devo ter conhecido ao longo desses últimos cinqüenta dias cerca de mi corações, alguns intactos e outros tão despedaçados quanto o meu. Alguns enormes, outros tão pequenos que o Senhor necessitaria colocar seus óculos. Foram pessoas de mais, ou pessoas de menos? Nunca saberei.

Enquanto isso fico aqui, sentado contando estrelas. Sei que são infinitas, ao menos isso talvez seja, me assombra saber que algumas pessoas conheça todas elas pelos seus respectivos nomes, prefiro acreditar que isso não é real, bem como toda essa dor que se encontra em meu peito. Doutor, eu prefiro até mesmo acreditar que o Senhor está aqui, vivo.

Sinto sua falta,

Sinto minha falta,

Sinto falta dele, doutor.

Sinto tanta falta, que acho que estou completo novamente.

Completamente, vazio.

A caminho da insanidade.

Sabe Doutor,

Definitivamente resolvi brincar com fogo, essa sensação que é uma mistura de perigo com, qualquer, outra coisa que me alucina, eleva meus pensamentos a um grau de hiperativismo completamente novo. Fico completamente trêmulo ao mesmo tempo em que me sinto sereno.

Me vi perdido quando olhei pro seu rosto ruborizado e muito próximo do meu, desde o instante em que resolvi chutar pra escanteio toda a minha sanidade, no momento em que avancei sem me preocupar e pronto para o tudo ou nada – e claro esperando o nada pelo meu enorme pessimismo.

Notei que não tinha o que temer quando já em seus braços senti aquela sensação de segurança, aquela que a eons eu não sabia como era, o tempo mudou e o frio se fez útil mais uma vez a este velho lobo rabugento, os segundos que de tão acostumados a correr para me deixar atrasado em todas as situações desaceleraram e jogaram ao meu favor, a pequena fração do dia em que estive em sua companhia pareceu uma eternidade que poderá ser lembrada por um bom tempo.

A lua não estava presente no céu mas eu tinha a sensação de que ela estava minguante, talvez com a mesma aparência do Cheshire e aquele sorriso psicodélico de felicidade e travessura no céu que refletia perfeitamente em meu olhar.

Estou enlouquecendo Doutor, não consigo prestar atenção em qualquer coisa sem me dar o luxo de lembrar da forma como o sorriso fraco e desconsertado dele me faz perder o ar, sem me lembrar do som de sua respiração junto ao meu corpo, ou da forma como seus olhos ficam quando está com sono e se aconchegando junto a mim.

É incrível! Não é Doutor?

Que eu tenha passado com ele apenas poucas horas e já ter notado tantas coisas que geralmente passariam despercebidas. A forma como ele se atrapalha com as palavras ao tentar explicar algo que jura que não irei entender, enquanto deixo o riso frouxo pra ver até onde ele vai e o calo com um beijo, doce e gentil. Observo que ele não resiste, inclusive até insiste para que eu não pare pois ele também tem a mesma sensação de esquecer do mundo.

Sinto sua pele na minha como milhões de pequenos choques que me instigam a querer mais ao mesmo tempo que me dão um simples aviso de não ir com tanta sede ao pote. Sinto que eu deveria ser precavido mas ao seu lado quero mandar toda minha metodologia capricorniana para bem longe, esquecer todos os planos que eu estava arquitetando e deixar na mão do acaso, afinal ele sempre irá me proteger enquanto eu andar distraído.

A pergunta que ecoa em minha mente é, se terei isso de novo. A ansiedade que percorre todo meu sistema nervoso me deixando ligado a uma alta voltagem, pilhado e com um desejo enorme. Começo a contar as horas para que tudo se repita, começo a contar os minutos para o próximo encontro. Começo a delirar pensando nas coisas belas da vida, em arte moderna, em filmes de comédia, em lugares floridos, em céus estrelados e o sorriso dele iluminando tudo!

Poisé Doutor,

Estou indo de zero-a-cem de novo, isso é infinitamente positivo!

500×1

Curiosamente Doutor, Tom Hansen estava mais uma vez coberto de razão. Novidade! Aliás se eu parar para analisar friamente minha vida é baseada em filmes, livros ou séries até mesmo quando não os conheço.

E desta vez eu estava preso dentro daquela sensação de querer ter tudo que tinha de volta e era algo tão forte que me cobria de dor e uma tal de saudade. Durante semanas me senti assim, no começo era porque havíamos acabado de terminar e com o passar do tempo eu me fechei, como uma concha protegendo sua maravilhosa ostra, e dizia que não mais sentia nada, a quem eu quero enganar?

É muito mais do que nítido em meu rosto o quanto eu ruborizo e amaldiçoou todos os deuses por ter de trombar com ele todas as terças feiras, de novo e de novo.

O fato Doutor, é que exatamente no dia 500 eu senti tudo aquilo de novo, tudo aquilo que eu jurava não mais poder sentir desta forma, e por mais que saiba que não vai me levar a nenhum lugar, e que estou preso dentro de uma fantasia inútil e infantil, tola e pretensiosa, acabei por descobrir Doutor que após um ano e meio, sou capaz de sentir tudo de novo. Estou quase vestindo meu traje e indo pra guerra novamente, mas o problema é que este Valete de Ouro está absorto com a sua nova, antiga, capacidade de amar e sentir-se vivo. Na verdade é como se eu tivesse a quinhentos dias sedento por água, andando naquela estrada de tijolinhos amarelos e de repente descobrisse que não sou nem o Leão nem tão pouco o Homem de lata, mas uma mistura deles todos.

Em determinado momento encontrei minha coragem de volta para arriscar, e meu coração recém consertado que agora é capaz de sentir a paixão novamente, mas como nem tudo são flores em minha vida, com uma descoberta desta claro que o diagnóstico de falha deveria vir em seguida e eu já esperava por isso.

Aqui estou, com um cigarro aceso pensando se devo ou não continuar minha jornada por esta estrada, agora que estou completamente diferente de a uma semana atrás, a sensação de poder estar me apaixonando justamente pela pessoa que eu talvez tenha culpado inúmeras vezes pelos desastres do meu até-então-relacionamento, erroneamente, me faz descobrir que não mais existe chão e o ar se torna completamente rarefeito.

Nesses poucos dias Doutor estou contando os minutos até receber uma mensagem e saio cantarolarando sozinho com o louro na sala de estar, nesses poucos dias eu fui capaz de dizer 500/1 motivos pelos quais irei parar de fumar, beber e começar a me exercitar. Descobri dentro de mim uma força: Amor, paixão, impulso, desejo ao mesmo tempo em que redescobri o que significa o respeito por alguém.

Mesmo à poucos instantes, quando frente a frente dele consegui controlar meu instinto predador de ataca-lo e beija-lo, pois não queria estragar tudo, mesmo que não saia como planejo pretendo aproveitar cada segundo em que estivermos próximos, cada momento em que minha pele congela e faz desse velho lobo esquentadinho um iceberg, cada um dos momentos singulares em que pequenos raios caem sobre minha pele ouriçando todos os pelos desde os pés até a nuca, pretendo mesmo aproveitar cada segundo desses que eu penso em várias formas de joga-lo contra a parede e apenas satisfazer todo meu desejo, minha sede de prazer, mesmo que só na minha cabeça.

Enquanto sinto o cheio de sua pele e me perco na imensidão azul de seus olhos que me olham com curiosidade, enquanto sua voz soa nervosa para poder fazer uma boa impressão e me remete a um cômodo fechado repleto de prazer, mesmo que esse cômodo seja apenas minha mente doentia e complexa.

Definitivamente Doutor, o Senhor Hansen estava coberto de razão e após todos aqueles dias de luto tudo recomeçou, e nem mesmo o senhor poderia prever um movimento tão audacioso desses, proveniente de mim certo?

Pulei do penhasco, de cabeça, pronto pra quebrar a cara. Com a armadura toda lustrada, armas em punho e um elmo reluzente.

E a partir de agora Doutor, entreguei na mão das parcas e que elas comecem a tecer novamente com fios de lã e não mais com arame farpado, ou que pelo menos elas consigam intercalar entre tudo.

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