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  • Author: Gabriel Alcalo

Bêbada de saudade.

Dia desses passeando pela enseada lembrei dos seus olhos verdes quase cinza no verão que eram como a luz intensa de um farol que me guiava a segurança, e hoje se apagaram. O mesmo cinza se tornou frio e distante. Acendo um ou dois cigarros não importa, mas caso importasse sei que diria “um dia você vai acabar sufocado com isso” acabou que o que me sufocou não foi o cigarro, foi você e sua indiferença.

Caminhei sozinha durante um bom período enquanto as músicas teimavam em tentar me animar, como se mais uma vez o meu ipod fosse capaz de sincronizar com meu humor, acredito que isso seja de fato uma função existente. Suas tatuagens, as vinte e duas que tinha quando nos conhecemos estão guardadas na minha mente como figurinhas coladas num álbum de criança, queria ter tido a oportunidade de catalogar as outras quatro que sei que fez.

Durante todo esse tempo eu procurei sobre você, das sombras, distante e como um cão acuado segui seus passos, queria ter certeza que não iria se perder no caminho e caso isso ocorresse eu estaria lá para te ajudar, te colocar nos trilhos, que tolice a minha… você nunca precisou disso. De fato era você quem me direcionava, mas nunca quis assumir isso, faria de mim dependente. Da mesma forma que eu nunca assumiria que adorava ficar na ponta dos pés para um beijo te roubar e de olhos fechados no teu peito me perder, eu nunca falaria isso, não para você.

E as flores que eu cultivava morreram todas, acho que o meu humor acabou afetando elas durante esses anos em que você não apareceu. Parece que o inverno chegou e nunca mais foi embora, e por mais que lá fora esteja quarenta graus eu sinto como se aqui dentro ainda estivesse pouco menos de cinco. O vinho não é capaz de aquecer minha alma, não quando sua taça permanece posta e eu só consigo beber saudade.

A verdade é que desde sua partida eu tenho estado perdida, e agora que perdi, também, suas pegadas preciso descobrir outro caminho pra trilhar. Talvez as qualidades escotistas me ajudem a desbravar uma nova trilha rumo ao desconhecido.

Estou com medo,

Está frio,

Está escuro,

Nada ilumina,

Sinto falta do teu abraço,

do teu sorriso.

Eu me apaixonei pelo que inventei de você

Este primeiro momento no trem foi decisivo, enquanto o vendedor ambulante grita sobre seus produtos de origem duvidosa e você pensa em todo esse açúcar que ele oferece com a língua presa e sorri. Foi este momento que fez meu mundo inteiro girar. Imaginei neste instante como te apresentaria aos meus pais, Andreia? ou será que era Giuliana? Definitivamente você tem cara de Larissa, não sei.

Tentei descobrir durante toda esta viagem como era seu cabelo, já que o escondia dentro da touca do velho e surrado moletom. Seus olhos sem cor definida, talvez castanhos claros ou cor de mel, encaixavam perfeitamente no seu rosto sem maquiagem. Está muito cedo, eu entendo que talvez tenha acordado atrasada e não teve tempo de se maquiar. Sua mãe teria te acordado ou seu gato? Você tem arranhados no rosto, consigo notar a essa distância. A capa do seu celular me faz mudar de ideia quanto ao seu nome, tem um V, será de Vitória ou do álbum cinco do Maroon Five?

De moletom e calças rasgadas combinando com um vans modelo antigo e skateboard, está indo trabalhar ou estudar? Pelo amor dos deuses, não me diga que ainda está no ensino médio, teríamos muitos problemas quando você entrasse na faculdade. Já imagino suas amigas, Duda e Marcella, com certeza elas, te dizendo para terminar comigo. Começamos muito cedo e você não aproveitou a vida, talvez sua mãe dissesse o contrário, ela gosta de mim. Sou capaz de ver pela forma como ela adora que eu tire teu irmão, Davi?, do vídeo-game e faço ele suar na quadra de basquete. Seu pai, infelizmente já morto, com total certeza abençoaria esse relacionamento, tenho certeza também que estaríamos sentados na sala vendo um jogo do Palmeiras, mesmo eu sendo corintiano, apenas para agradá-lo. Ele recusaria ceder uma cerveja, perguntando-me mais uma vez quais meus planos para o futuro e você gritaria com ele para se calar e aí então eu ganharia uma cerveja gelada.

Seus gatos, como pude esquecer deles? Lilith e Laugh, daquela marca sem pelo que eu nunca lembro o nome e te irrito chamando de marca ao invés de raça. Estariam no meu pé, pelo fato de eu não gostar deles, mas eles me amariam porque vêem que no fundo eu te faço tão bem.

Duda seria nossa madrinha de casamento, mesmo grávida. Já consigo imaginar ela rechonchudinha, vestida de azul,. enquanto o Padre pergunta se alguém tem alguma coisa contra o nosso casamento. As lágrimas correm no rosto dela e durante a festa novamente chora. Pega uma taça e faz o discurso de que me odiava a princípio, por tudo que te fiz passar, mas vê o quanto te incentivei a crescer. Marcella não compareceu, infelizmente durante os anos, você acabou percebendo a víbora que ela era, até mesmo aproveitadora, eu diria. Davi se tornou um ótimo jogador de basquete, graças ao incentivo que eu dei, mas ele seguiu outro caminho, foi para faculdade de arquitetura fora do Brasil.

Sua mãe se orgulha muito de você, menina.

Não consigo entender porquê por detrás desse sorriso torto, que dá pela linguá presa do vendedor aqui do trem, você esconde tantos arranhados e choro engasgado, por que se odeia tanto se eu já te amo? Se eu acabei de construir todo nosso futuro?

Tomo coragem de perguntar o seu nome e ver minha história toda cair por terra quando o trem finalmente faz sua parada e você desce. Nunca mais te verei.

Mas garota, me faz um favor?

Diga a sua mãe para continuar fazendo aquela lasanha de molho verde, porque é uma delicia, e não esqueça de fechar a torneira após escovar os dentes a noite, precisamos cuidar bem do mundo em que vivemos para que assim, talvez, ele conspire para nós estarmos juntos de novo.

Mesmo que só na minha cabeça.

É, me apaixonei mesmo pelo que inventei de você.

Quatro notas

Verão.

Céu aberto.

Estrelas.

Brisa fresca,

Confusão.

Sento no alto do beiral da laje do casarão com uma garrafa de whisky e meu velho ukulele vermelho, nas cordas quatro notas são o suficiente para me transportar. Vago por um universo de infinitas possibilidades, onde minha mente insana e ébria descobre cada curva do seu corpo no escuro. Onde minhas mãos fazem mais do que apenas bagunçar as cordas de um velho instrumento bordô. Contemplo a existência de uma plenitude do outro lado e a cada dedilhar vislumbro um futuro que ainda não existe e me perco neste extenso caminho entre os diálogos que, infelizmente, só eu sei de cor.

Um gole, seguido do outro, e as palavras saem molhadas para fora da minha garganta que rouca dos vários cigarros fumados pela ansiedade, grita com todo o ar que puxa dos pulmões para uma lua cheia e brilhante, como um lobo solitário.

Sei que ninguém é capaz de ouvir os gritos que dou e aqui do alto do segundo andar observo a imensidão negra abaixo. Grande como o próprio vazio no meu peito e me pergunto se as borboletas do jardim, que sei que existem, estariam em algum lugar lá embaixo da mesma forma como tenho certeza que voam de um lado à outro dentro do meu estomago neste momento.

Uma quinta nota.

Uma nova dúvida.

Um mau começo.

Uma noite azul.

Um novo gole.

Tudo igual.

Nada mudou.

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