Sinto muito.

Doutor,

Quantas vezes é possível que cometemos os mesmos erros? Tenho tido cada vez mais a consciência de que estou fazendo tudo da forma mais errada quanto possível, mas não sei em que estou me embasando, logo meus argumentos contra mim são impróprios e errôneos o que me deixa um pouco pior do que as últimas vezes que estive em seu antigo consultório reclamando do chá gelado e amargo da recepção. Da última vez que nos vimos lembro de ter tido uma crise de pânico na noite anterior e te ligar, lembro como se fosse ontem a sensação de vazio que tive, a perda gradativa da visão e o sufoco na garganta, a incapacidade de respirar em modo automático, o terror que eu tinha certeza que estava nos meus olhos enquanto eu gostaria de arrancar minha própria pele com óleo quente, lembro mesmo como se fosse ontem – se repetiu

Os motivos que acarretaram a crise assim como os sintomas foram os mesmos, a minha constante vontade de mudanças, de entrega, de crença, me provando que eu sou um dos últimos na terra. Acreditei que desta vez teria apreendi algo nas aulas de engenharia e não iria construir nada em solo arenoso, que grande falha a minha, amaciei o solo com expectativas e otimismo quando o mesmo era incapaz de fazer florescer o mais singelo pé de feijão – sim, este que nasce até mesmo em algodão. Semeei felicidade como de costume, mas no final, nada nasceu e eu acho que estou acabando com todo o meu estoque de sementes, doei algumas sacas para pessoas próximas – algumas tiveram sorte no plantio e não consigo deixar de sentir esse sentimento verde, pura inveja.

O fato Doutor, mais uma vez, é que estou perdido e como já de costume dividido entre alguns mundos, que infelizmente não são mágicos e nem trazem aventuras e nada parecido e para ser sincero andei tendo alguns picos de crescimento, desacreditando completamente das fábulas e contos de fada. Me divido entre o certo e o errado, mesmo sem saber a diferença entre eles. Me divido entre o amar e o sofrer, tendo certeza que escolho sempre as pessoas erradas – sempre. Me divido entre me dividir quando queria multiplicar, somar e nunca – nunca – subtrair, mas aparentemente as operações matemáticas simples tem evoluído e entrado em minha vida em constantes complicadas equações que nem mesmo Einstein preveria. E como resultado disto tudo, temos mais uma vez o desejo de fuga dessa realidade – frustração.

Me frusto ao nutrir sentimentos não correspondidos, aceitar o carcere única e exclusivamente por necessidade, por tentar a todo custo transmutar coisas impossíveis ao meu redor. Entrei novamente nos entorpecentes em busca de resultados eficazes contra a dura realidade que ando presenciando, mas parece que os efeitos se esvaem rapidamente desta vez, sinto cada vez mais o gosto amargo do desespero na boca, das expectativas que se criam de forma autônoma em minha cabeça por mais que eu saiba que tudo está ruindo, é como se elas fossem as únicas que sobreviveram ao apocalipse, mais resistentes até que as baratas, o senhor me entende Doutor?

Procuro, incansavelmente por uma saída, um atalho, uma companhia, um novo rumo – sem sucesso até agora.

Onde o senhor foi parar, porque nunca mais o encontrei?

Sinto falta de nossas conversas…

Sinto falta de mim mesmo…

Sinto falta do Sol…

Sinto falta do gosto doce das coisas…

Sinto falta….

Sinto…

Só sinto muito…

24 anos. Muita confusão e nenhuma decisão. Certezas e coração vazios, copo e mente cheias. Perdido nos singulares que aspiram a plural. Trocando pessoas e pronomes porque acha que o imperfeito não participa do passado.

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