Cinza como fumaça 

Hoje pela manhã enquanto acendia meu já tradicional e batido cigarro para esperar o ônibus que mais uma vez estava atrasado – acredita? – me deparei com uma cena na minha cabeça, talvez seja uma dessas que eu nunca mais vou esquecer.

Seus olhos verdes quase acinzentados de sono ao me dar bom dia se espreguiçando pela cama enquanto eu corria por estar atrasado e você achava graça, tudo bem que aquela hora da manhã eu poderia xingar toda uma geração da sua família que você ainda acharia graça. Talvez nunca tenha dito a ti que eu quase nunca tropeçava tantas vezes seguidas a não ser para cair no seu colo e sentir seu abraço de urso manhoso me pedindo para ficar mais um pouco contigo na cama, e mesmo sofrendo por dentro eu dizia não amargamente – mas a verdade é que eu adorava aquele abraço matinal, do seu jeito sonambulístico fazendo aquilo no automático me dava a sensação de realidade.
Enquanto sacudia a cabeça para tirar essa imagem mental e tentando me concentrar em uma alguma outra monstruosa, lembrei-me do dia que estávamos no parque de diversão e de como você discutiu severamente com um jovem senhor por conta daquela última pelúcia da Disney, o quanto você gritou e brigou porque queria me agradar, foi a primeira vez que vi indícios de violência em você e na época achei lindo pois você estava fazendo de tudo para me agradar, mesmo sabendo que eu já tinha várias outras variações daquele ornitorrinco verde.

Experimentei nessa manhã sensações múltiplas que iam de amor à ódio em fração de segundos tal como seu carro ia de zero a cem no meio da rodovia, no rosto eu poderia também sentir o vento batendo cortando mas assim como essa manhã era algo que não me importunava pelo contrário me mostrava o quão vivo ainda estava. A adrenalina na época era o que me movimentava trazia o brilho nos olhos, talvez hoje olhando meu reflexo nessas poças d’água eu possa dizer algo sobre brilho nos olhos, ou talvez seja apenas o reflexo diluído dos postes da rua que teimam em não apagar em manhãs chuvosas.
A pouco tempo atrás eu provavelmente falaria que em cada poça dessa rua teria uma lagrima minha, mas não hoje.
Não mais.
Não por você,
mas caso pudesse lhe dizer algumas coisas cara-à-cara diria que resolvi seguir o seu conselho e entrei nas aulas de pintura, mesmo a contra gosto, e logo meu primeiro trabalho foi o de representar algo que retratasse uma saudade que apertava o peito, inacreditavelmente desenhei teus olhos verdes quase acinzentados de sono, a única coisa sua que guardei dentro de mim após todos esses anos. Os mesmo olhos que me diziam com quem eu estava, as cores que sibilavam de acordo com seu humor. Os olhos que me denunciavam uma mentira, ou fantasiavam um futuro junto aos meus. A imensidão da honestidade blindada nessa casca sem amor que você se tornou, nesse homem sem sonhos, sem perspectivas sem coragem alguma. A única coisa que eu amei que permaneceu, talvez o motivo de eu te-los desenhado é porque sentia falta sim do homem que costumava usa-los e não do último que conheci que os possuía, complexo mas nem tanto.

24 anos. Muita confusão e nenhuma decisão. Certezas e coração vazios, copo e mente cheias. Perdido nos singulares que aspiram a plural. Trocando pessoas e pronomes porque acha que o imperfeito não participa do passado.

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