Quatro notas

Verão.

Céu aberto.

Estrelas.

Brisa fresca,

Confusão.

Sento no alto do beiral da laje do casarão com uma garrafa de whisky e meu velho ukulele vermelho, nas cordas quatro notas são o suficiente para me transportar. Vago por um universo de infinitas possibilidades, onde minha mente insana e ébria descobre cada curva do seu corpo no escuro. Onde minhas mãos fazem mais do que apenas bagunçar as cordas de um velho instrumento bordô. Contemplo a existência de uma plenitude do outro lado e a cada dedilhar vislumbro um futuro que ainda não existe e me perco neste extenso caminho entre os diálogos que, infelizmente, só eu sei de cor.

Um gole, seguido do outro, e as palavras saem molhadas para fora da minha garganta que rouca dos vários cigarros fumados pela ansiedade, grita com todo o ar que puxa dos pulmões para uma lua cheia e brilhante, como um lobo solitário.

Sei que ninguém é capaz de ouvir os gritos que dou e aqui do alto do segundo andar observo a imensidão negra abaixo. Grande como o próprio vazio no meu peito e me pergunto se as borboletas do jardim, que sei que existem, estariam em algum lugar lá embaixo da mesma forma como tenho certeza que voam de um lado à outro dentro do meu estomago neste momento.

Uma quinta nota.

Uma nova dúvida.

Um mau começo.

Uma noite azul.

Um novo gole.

Tudo igual.

Nada mudou.

24 anos. Muita confusão e nenhuma decisão. Certezas e coração vazios, copo e mente cheias. Perdido nos singulares que aspiram a plural. Trocando pessoas e pronomes porque acha que o imperfeito não participa do passado.

Deixe uma resposta