Consulta #3 – Maçãs, Flores e Oz

Doutor;

Eu me perdi em algum ponto há duas esquinas pra trás, quando tentaram me explicar a diferença entre maçãs verdes e vermelhas, e do porquê somos melhores como flores do que como árvores. Tudo bem que isso pode parecer não fazer muito sentido sendo falado assim, mas acontece que depois de um breve diálogo numa mesa de bar com um velho conhecido, onde compartilhamos do mesmo copo de cerveja, as explicações quase fizeram sentido. Digo quase porque até pra mim ainda há algumas arestas soltas.

– Você não devia beber cerveja. – Disse, sentando ao meu lado sem ser convidado. E eu, sem entender muito apenas dei de ombros e continuei bebericando meu copo. – Você é o tipo de pessoa que combina mais com aquelas coisas doces, cerejas, morangos, maçãs… se bem que você não gosta de maçãs.

– Eu gosto de maçãs.

– Não, você não gosta.

– As verdes são boas.

– As verdes são incompreendidas. Nem todos conseguem apreciar o que elas tem a oferecer, diferentemente das vermelhas, que por serem sempre doces e suculentas, costumam agradar a todos. Mas você não faz o gênero de quem gosta do trivial, prefere as azedas, porque elas externam aquilo que sente por dentro, ou seria aquilo que tenta demonstrar que sente, sem na verdade sentir? Você não é uma maçã verde, embora goste de se representar assim para o mundo, sem nem ao menos gostar de maçãs.

– E quando foi que maçãs se tornaram um assunto importante?

– Você não percebe a proporção disso tudo? Eu acho que as pessoas deveriam parar de se portar como grandes árvores chatas e eternas que sempre formarão uma imensa floresta. Nós não somos como carvalhos, somos como flores, que sempre morrem e renascem, apenas pra poder morrer e renascer de novo na próxima estação, mantendo assim um ciclo de renovação, enquanto as árvores só ficam lá paradas, sofrendo enquanto tudo a sua volta se renova. A imortalidade é muito chata, você não acha? Eu gosto de ser como o fogo que sempre vai destruir a floresta, assim ela aprende a se renovar.

– Você é o cara que gosta de queimar as coisas?

– Pode se dizer que sim, e você é mulher que gosta de atrair o fogo. Não adianta ficar aqui sentada, tomando cerveja sem gostar e acreditando que um dia o gosto das maçãs vão te agradar, quando na verdade você queria estar lá fora, se renovando como as flores em uma manhã de primavera. Vivemos de ciclos, você tem mil possibilidades pra escolher e não ficar apenas dependendo de uma. Tem que prestar atenção nos sapatos amarelos que atravessam a estrada de tijolos vermelhos… Ou seria ao contrário? Que Dorothy me perdoe, mas são eles que vão te levar pra fora de Oz.

– Talvez eu não esteja acompanhando o seu raciocínio.

– Você só precisa lembrar de três coisas… Quais são elas?

– Prestar atenção nos sapatos amarelos, seja lá o que isso quer dizer! Não depender de uma escolha entre mil possibilidades e… Não beber cerveja?

– Muito bem, minha amiga. E da próxima vez, trate de pegar uma cerveja menos aguada. Eu gosto dos sabores mais fortes.

E foi depois de uma piscadela e o gole final na minha cerveja aguada e quente que ele se levantou e saiu pela porta, sem se despedir e sem sequer me explicar mais nada.

Doutor, existe alguma estatística que nos mostre com que frequência podemos encontrar pessoas com sapatos amarelos pelas ruas?

Pseudo intelectual, aspirante a fotógrafa, curiosa por natureza, cheia de ideias revolucionárias que nunca vão chegar a lugar algum. Gosta de filmes de terror, séries dos mais variados tipos e livros dos mais distópicos possíveis. Caiu na besteira de querer ser programadora, mas depois de um tempo foi fazer publicidade e hoje ganha a vida resolvendo problemas que as pessoas não sabiam que tinham. Já tentou ser mestre pokémon, não gosta de princesas e não sabe ser uma menina meiga. Apaixonada por mitologia, vampiros e qualquer outra coisa sobrenatural. Fala mal de tudo, inclusive das coisas que gosta.

One Comment

  • Le Loup

    3 de agosto de 2015 at 1:06 pm

    E quem irá dizer afinal que existe razão nas coisas feitas pelo coração? Renato já dizia isso em um tempo onde muitos nunca sonhariam com a resposta exata para uma questão quântica no quadro negro, que no final das contas é verde e frio. Deixe de mostrar o azedo de dentro do lado de fora, escolha plantar sorrisos bem como as flores, a cada pétala que cai ou lagrima que escorre ainda tem chance de ser belo e aceito, porque a beleza está nos olhos de quem olha.

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