Copos Cheios, Palavras Vazias (III)

Já reparou que as coisas que mais te deixam feliz são justamente as que você não espera? As que você não faria se tivesse um senso de juízo em bom estado. Parece que essas coisas acontecem quando a gente perde a esperança em algo, ou em tudo. É. Hoje foi mais ou menos assim.
Eu tava de saco cheio de ficar aqui ouvindo o silêncio que meu pai deixou, e essa minha cabeça idiota tava me fazendo ouvir o velho reclamar da televisão queimada. Porra, essa TV queimou uma semana antes dele bater as botas, e ta lá até hoje. Mas, foda-se a TV, depois disso eu resolvi dar uma arejada no pensamento e fui pra rua. Estranho, pois ainda tava claro. Acho que a ultima vez que tomei um sol, foi no enterro do velho, ou seja, faz tempo pra cacete.
O sol tava forte, apesar de serem seis da tarde, e eu tava faminto, e num agüentava mais ir no Calixto’s, apesar de ser a três prédios do que eu moro, resolvi andar mais.
Bom, fazia dez minutos que eu tava andando e eu já estava empapado de suor. Pudera, apesar de eu estar com uma regata branca, tava com o sobretudo por cima, e aquela merda tava me cozinhando. Entrei numa bodega qualquer, pra comer e tomar algo gelado.
Pra ser prático, pedi um americano e uma breja. Até que o lanche tava bom, mas o legal foi a breja. A cada gole que eu dava, sentia até meu pinto tremendo de frio. Sabe, acho que quem inventou a cerveja deveria ser beatificado, é bom demais pra ser fruto da mente humana. Aí deu vontade de tomar mais uma. Foi o garçom trazer, eu deixei uma nota de vinte, e levei a garrafa pra passear.
Saí na rua, o sol já tava baixando e o calor já tava mais brando, e eu comecei a andar, beber e pensar, não exatamente nessa ordem, mas deixa pra lá. Depois de uns dez minutos, a garrafa tava vazia, e eu também, sem planos pra noite, mas eu já havia saído e é muito deprê sair só pra tomar uma. Se bobear, teria sido melhor ficar dormindo, ou secando meu estoque caseiro.
Até que meu celular tocou. Caralho, tem hora que eu me esqueço que tenho celular, ele fica semanas sem tocar, só serve de despertador e, quando alguém me liga, chega a me assustar. Era a Drica, amiga de velha data e de velhos casos. Pelo tom da voz dela, ela já devia estar mais bêbada que o Diabo no carnaval. Comecei a rir, acho que por falta do que dizer, ela tava falando tudo muito enrolado, sobre um cara que queria sair com ela, e ela deixou ele sozinho no bar, com a conta do porre dela pra pagar. A Drica é foda, tem hora que ela me parece homem. Mesmo, só que ela tem uma bunda linda. E de bunda de macho, eu não gosto.
Ela me chamou pra ir num barzinho que um amigo dela tinha comentado que era bom, perto da Paulista. Bom, ou eu ia, ou voltava pra casa e dormir. Ou seja, eu fui. Cheguei lá uma meia hora depois do combinado, mas isso pra mim já é de praxe, a Drica me conhece. Meio de porre, meio puta comigo, eu cheguei e ela me deu um oi atravessado, afogado com um gole de cerveja.
Pra variar, como todo lugar onde ela me arrasta, eu num conhecia ninguém. Mas, foda-se, por que sair com ela é como sair com um artista de TV. Ela conhece todo mundo, e por tabela, todo mundo me conhece. Só que eu sou mero coadjuvante do lado dela. Passar duas horas do lado dela me fez um bem tão bem para o ego e para a cabeça, que eu mal me lembrei o quanto que eu bebi aquela noite.
Até a manhã seguinte, lógico.

Universo Alternativo é um blog de entretenimento (ou não), criado em meados de 2009 e, quando nada deu certo, foi morto e reinventado a partir do zero (em 2014) como se nada tivesse existido antes. Gerado diretamente do Caos (Caos), assim como seus irmãos Nyx (Noite) e Érebo (Escuridão), UA é a personificação dos universos paralelos existentes no Cosmos. Para um melhor entendimento sobre o assunto, indicamos o estudo de mitologias de um modo geral.

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