Copos Cheios Palavras Vazias (II)

Tem dia que a noite é foda. Já dizia uma música idiota que eu nem sei onde ouvi. Ontem, devia ser umas três da tarde, meu celular tocou. Fiquei puto, tava dormindo. Mas, tudo bem, podia ser importante. Antes tivesse voltado a dormir.

Era a Marina. É… Ela mesma, a que me deixa fodido só de pensar, que estraga uma noitada só de passar de carro e dar tchauzinho. Me ligou.

Com a voz super doce, me disse que andava pensando em mim, que tava com saudade, que queria me ver pra lembrar os bons tempos. Filha da puta. Como se eu não me lembrasse do que eram esses bons tempos.

Peraí, esse tempo todo eu to falando dela, nem expliquei direito quem ela é ou como eu cheguei nesse ponto que eu tô. Já faz uns três anos, eu tava vivendo com meu pai, nesse apartamento que eu ainda estou morando. Num dia que tava se sentindo mal, meu pai foi no médico e o doutor pediu um exame nos pulmões dele. Há! Na mosca. Eu passei mais de doze anos falando pra ele parar de fumar. Ele parou no dia em que morreu de câncer no pulmão.

Quando eu liguei pro médico pra falar que o velho tinha apagado de vez, eu só ouvi ele dizer que meu pai era um bom amigo, e que lamentava, mas ele tinha avisado. Meu pai passava o dia na empresa que ele levou trinta anos pra fazer crescer. Saía de lá, chegava em casa, bebia e fumava até a hora que caía de exaustão no sofá mesmo. Que eu me lembre, foi por isso que minha mãe se separou dele.

Separou, modo de dizer, ela se meteu com um cara da empresa que ela trabalhava, e foi com ele pro México, me deixando na mão daquele louco alcoólatra do meu pai.

Eu sobrevivi a doze anos nesse apartamento com o meu pai. Não era difícil viver com ele, a vida sempre foi boa, e eu me gabo de nunca ter precisado trabalhar. Ele morreu, me deixou uma bela grana, umas casas espalhadas por Sampa, duas em Santos e um sítio de Limeira. Fora a empresa, que eu pus um cara que tava com meu pai naquele lugar há uns vinte anos na gerência, e o dinheiro mais entra que sai.

Bom, a Marina, esqueci. Aí quando meu pai morreu, eu pirei. Mesmo. Apesar da companhia dele não ser das melhores, era meu pai, ele tinha me criado. Da minha mãe, a ultima vez que eu ouvi falar dela, ela tava trabalhando como advogada em Nova York. Eu comecei a virar as noites de bar em bar, bebendo que nem um doido. E conheci ela, bela e pomposa, fedendo a tesão e promessas de ótimas noites vindouras.

Naquela mesma noite que a conheci, me apaixonei por ela e, durante sete meses, me vi preso por aquela mulher que mal me deixava sair da cama, e que satisfazia por completo. Até que, sem dizer o por que, foi embora e me levou os sonhos, promessas e desejos que cresceram em mim.

Bom, então, ela ligou. Falou pouco, com aquela voz mole dela, mas foi o suficiente pra me deixar me sentindo o pior animal desse planeta. É foda, por que eu tava dormindo numa boa, depois de um puta porre, e o dia prometia ser bom, mas acabou com o meu humor. Deitei na minha cama, fiquei assistindo uma aranha atravessar o teto e entrar numa fresta bem no cantinho, levantei, tomei umas doses do conhaque velho que tava guardado no armário do meu pai, até que tava bom, mas me deixou sonolento, e eu dormi até as três da matina, ou seja, agora, e eu to aqui na sala, escrevendo e xingando aquela putinha até agora.

Universo Alternativo é um blog de entretenimento (ou não), criado em meados de 2009 e, quando nada deu certo, foi morto e reinventado a partir do zero (em 2014) como se nada tivesse existido antes. Gerado diretamente do Caos (Caos), assim como seus irmãos Nyx (Noite) e Érebo (Escuridão), UA é a personificação dos universos paralelos existentes no Cosmos. Para um melhor entendimento sobre o assunto, indicamos o estudo de mitologias de um modo geral.

Deixe uma resposta