Copos cheios, palavras vazias (I)

Pessoal, há muito tempo, eu tinha começado um blog simples, contando uma fic passada em São Paulo. Espero que agrade… Toda terça vai ter atualização. Abraços.

Hoje eu me vi numa situação estranha, pelo menos eu acho, afinal, você já se apaixonou por uma estranha? Pois essa noite eu acho que consegui essa proeza. Pra variar, a minha noite começou no Calixto’s.

Mais uma vez eu acordei no meio da noite (mas, na verdade, eram uma e dez da madrugada) me sentindo o animal mais indesejado da Terra. Já fazia muito tempo desde que Marina foi embora e, desde então, com a exceção de umas putas baratas, eu num comia ninguém fazia um tempão.

Se tem uma coisa que me deixa boladão, é ficar me lembrando daquela cadela da Marina. Sério. Às vezes parece que vou levantar da cama e ver ela sentada no sofá, com as pernas cruzadas, me olhando dormir. Normalmente quando isso me acontece, eu vou pro Calixto’s encher o caneco. Ou seja, quase todo dia.

Dessa vez eu cheguei lá meio que desorientado, pois as minhas pernas rumaram pra lá, mas a cabeça tava ainda no travesseiro. Sabe como é, não? Só me dei conta que tava parado no balcão do bar depois de um bom tempo com aquele guri que vira a noite lá me enchendo o saco. “O de sempre, Nuno?”. Diabo de moleque, claro que ele sabe que é o de sempre. Nem sei por quê, mas tem hora que me dá vontade de dar um soco na cara naquele nariz sujo dele, só pra ver ele sangrar. Fazer o quê? Num tenho culpa.

Mas, então, ele me deu duas garrafas de cerveja e uma dose de Jack Daniels (o de sempre). Eu sentei numa mesa no fundo, de preferência onde nem lâmpada tinha, e fiquei ali pensando. Tem hora que a gente só precisa de umas brejas e um amigo pra se sentir melhor. Sinceramente, não conheço ninguém melhor pra ouvir minhas asneiras do que o bom e velho Black Jack.

Nessa de ficar falando com a parede e bebendo sozinho, já devia ser umas três e meia, eu já tava na sexta garrafa de cerveja e o copo de uísque tava seco, o que me deixa puto. Garçom babaca ainda vai, mas deixar cliente assíduo com o copo vazio já é sacanagem. Nem me toquei, o bar tava lotado e a minha mesa era a única que num tava cheia de gente. Essa molecada nova é foda, mal faz idade pra beber, já tem o fígado mais fodido que o do meu finado pai. Olhando bem, é até melhor o bar ficar cheio, eu não tenho de ficar olhando pra cara de merda do garçom.

Tem umas putinhas que só faltam tirar a calcinha depois da segunda garrafa.

Numa das mesas do lado, tinha uma turma que nem tava fazendo muita putaria, mas tava falando alto pacas, e eu fiquei só prestando atenção no papo deles: um dos caras que tava falando tinha pinta de ser meio burguesinho, meio mauricinho, tipo de gente que me dá no saco, mas esse cara tava falando uns negócios legais até, comentava com umas garotas com cara de anta sobre a situação atual do país, que o governo tava fazendo umas coisas legais, mas que ele num duvidava muito que por trás disso tinha muita merda escondida. Uma das minas também tava falando muito, mas era um papo muito eco-idiota, parece que tá na moda hoje em dia, gritar “salvem as baleias” e ir ao show da nova banda sensação com umas sandálias de couro que parece que roubaram da cova do próprio Lampião.

É, essa molecada tá perdida mesmo. Mas eu fugi do assunto de novo. Além dessa doida que tava falando demais pro meu gosto, tava a mina que me fez ficar babando na mesa e esquecer do copo de uísque. Tem garotas que, só de bater o olho, você já sabe que é um ser divino. Ela era assim. O cabelo escuro, senão preto, chegava um pouco abaixo dos ombros, a boca dela, um tanto pequena até, dava um tom meio angelical pro rosto, mas esse tom se desmanchava totalmente quando ela sorria, nessas horas, eu enxergava nela uma mulher pegando fogo por dentro, o sorriso dela me acendeu do canto que eu tava. Por cima de um ombro, uma tatuagem em forma de dragão se estendia até o dedo mínimo, também prendeu bastante a minha atenção.

Num momento ela se levantou, acho que pra pegar mais umas brejas pra mesa dela e me olhou. Cacete, eu fiquei bobo com aquela menina me olhando com aquele olhar, e ela passou por mim, foi até o balcão e voltou pra mesa, me olhando de novo daquele jeito. Juro que só dela me olhar eu fiquei louco de tesão. Na hora que ela passou de volta, veio bem devagar, como se estivesse esperando que eu a chamasse pra sentar ali do meu lado, beber um Black Jack, e sabe mais o quê. Mas eu fiquei com medo, ou foi timidez mesmo, mas eu fiquei quieto.

Tem uma pergunta que as pessoas fazem pra ter uma idéia se você é otimista ou não: se um copo com água até o meio está meio cheio ou meio vazio. Pra mim está sempre meio vazio.

Já devia ser umas seis horas quando o Calixto’s fechou, pois já tava clareando o dia, e eu tava meio bêbado, meio com sono, quando vi aquela mina indo embora, sozinha. Provavelmente os amigos riquinhos dela não quiseram dar uma carona pra ela, ou ela não quis dar pra algum deles e ficou a pé mesmo. Se ela tivesse subindo a rua, eu falava com ela, mas já tava muito longe e eu tava com sono pra caralho.

Só tem uma coisa que ta me incomodando, já são cinco da tarde, o Calixto’s já abriu de novo, eu não dormi, e num consigo parar de pensar naquela garota. É, parece que eu consegui mesmo me apaixonar por uma estranha.

Universo Alternativo é um blog de entretenimento (ou não), criado em meados de 2009 e, quando nada deu certo, foi morto e reinventado a partir do zero (em 2014) como se nada tivesse existido antes. Gerado diretamente do Caos (Caos), assim como seus irmãos Nyx (Noite) e Érebo (Escuridão), UA é a personificação dos universos paralelos existentes no Cosmos. Para um melhor entendimento sobre o assunto, indicamos o estudo de mitologias de um modo geral.

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