Tanto faz

Doutor,

Preciso, urgentemente, de uma receita, de preferência dupla, de rivotril. As minhas noites de sono estão, a cada dia piores, e eu já não sei o que fazer. Os farmacêuticos já não me deixam comprar minha benzodiazepina favorita sem receita. Minhas dores de cabeça têm se tornado cada vez mais constantes e tudo o que eu queria era poder apagar por algumas horas. Não venha me falar de vício psicológico, foda-se se for, eu quero dormir!

Na última noite eu achei que tivesse em outro daqueles delírios, já estou começando a achar que a esquizofrênia não é mais algo tão distante, a confusão do real com a irrealidade… E a sua inutilidade não está me ajudando em nada. Mexa essa sua bunda gorda, doutor, ou seus cheques começarão a atrasar.

Eu saí de casa, às 22h da noite, para dar um passeio por aí, como frequentemente faço, por causa da insônia que não me deixa dormir. O melhor é dar uma volta para espairecer e ver se o maldito sono aparece. Fui parar em mais um daqueles bares, entrei e me sentei, pedindo a minha dose de vodka favorita, como sempre, rotineiro? Foda-se também. O barman me serviu, e eu olhei bem para a cara dele para me certificar de que não era outro daqueles encontros casuais das minhas tantas personalidades revoltadas. Não era.

Beberiquei e olhei ao redor, era de se esperar que não houvesse ninguém de interessante, nunca havia. Mas ali no fundo tinha uma pessoa diferente, que eu, em todas as minhas idas nesse local, nunca havia visto, e ela estava olhando pra mim. Daí a sensação de que estava, novamente, entrando em um estado de semi-dormência, acompanhado de delírios. E olha que só estava no primeiro gole… Ri da situação e continuei a beber, observando a pessoa que também me observava.

A vodka acabou, pedi que me servisse outra dose e ergui o copo, oferecendo-o ao ser do outro lado do bar. Ela se levantou e se aproximou. Uma mulher de cabelos negros e repicados na altura da nuca, belos olhos verdes que estavam bem marcados com o delineador preto que eu tanto gosto na minha própria maquiagem. Usava jeans colado… belas coxas e, que bunda… Uma regata branca e algumas pulseiras.

– Vodka? – Ofereci.

– Mais que isso. – Ela atacou e eu sorri sozinha e maliciosa, dando um grande gole no meu copo. – Não costumo te ver por aqui, e olha que eu sempre venho… – Ela disse em uma tentativa inútil de puxar assunto. Mentira, obvio, eu sempre estava por ali, e ela não, logo… Cantada barata, ou não. Eu apenas assenti. – Posso te acompanhar com algo mais quente, talvez? – Ora, minha filha, acompanhe com o que quiser, desde que o dinheiro saia da sua bolsa e não da minha.

Ela puxou o banco ao meu lado e pediu uma branquinha, bela opção, mas eu continuaria na vodka mesmo, com limão, kiwi, o que fosse.

– Costuma frequentar quais tipos de lugares?

– Veja bem, eu estou sem sono e apreciando uma deliciosa vodka. Você está atrás de companhia para passar a noite e, aparentemente, gostou de mim. Então vamos direto ao ponto. Não precisamos nos conhecer, exatamente, para que haja algum envolvimento. Então diga agora o que quer! – Soltei, sem nenhum pudor, se não fosse o que eu estava pensando, foda-se também. Mas eu estava totalmente certa.

– Quero te conhecer melhor.

– Bem, querida, eu não gosto de conhecer as pessoas. Eu tenho um apartamento, com bastante álcool e uma cama grande. – Terminei o segundo copo de vodka, o barman entendeu que deveria enchê-lo novamente. Ela riu, parecendo divertida, mas eu não via graça alguma nas minhas palavras, apenas sinceridade.

– Você gosta de mulheres?

– Eu gosto de prazer, independente de com quem seja, acho que isso responde a sua pergunta. – Levantei, virando o último copo de vodka e deixei uma nota de vinte sobre o balcão.

– Acho que você está um pouco bebada…

– Que diferença faz? Estando bebada ou sóbria, você quer o meu corpo de qualquer forma, então aproveite e use, querida. Estamos em um país livre, e viva a opção de cada um. – Eu ri, ela riu, nós rimos, até o barman riu… quer entrar na onda também, meu bem? Menage à trois é super aceito.

A realidade dos fatos, doutor, é que aquilo não era um delírio, aquela gostosinha de bunda grande do bar estava realmente dando em cima de mim, realmente estava a fim do meu corpo. E o barman não recusaria se eu tivesse proposto um a três básico. Vire esses seus olhos maliciosos para lá, seu velho babão de pelos pubianos grisalhos! Recomponha-se e deixe que eu termine a minha história.

Enfim, concluindo, a morena era gostosa e sabia fazer coisas incríveis com a língua! Meu teor alcoólico estava consideravelmente baixo, três doses não me derrubam. E o barman ficou chupando o dedo, assim como o senhor.

Essa foi mais uma daquelas situações em que a minha sinceridade e sarcasmo levam a uma excelente noite. E eu nem estava a fim de sexo, pra ser bem sincera!

Pseudo intelectual, aspirante a fotógrafa, curiosa por natureza, cheia de ideias revolucionárias que nunca vão chegar a lugar algum. Gosta de filmes de terror, séries dos mais variados tipos e livros dos mais distópicos possíveis. Caiu na besteira de querer ser programadora, mas depois de um tempo foi fazer publicidade e hoje ganha a vida resolvendo problemas que as pessoas não sabiam que tinham. Já tentou ser mestre pokémon, não gosta de princesas e não sabe ser uma menina meiga. Apaixonada por mitologia, vampiros e qualquer outra coisa sobrenatural. Fala mal de tudo, inclusive das coisas que gosta.

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