O maestro francês da fantasia real voltou

Eu não sou muito fã do cinema francês. Alguns filmes se salvam e acabam me agradando, como é o caso de Micmacs à Tire-Larigot. Minha birra é por grande parte dos envolvidos na indústria por aquelas bandas se acharem mais finos, mais intelectuais, enfim, melhores. Na minha opinião eles são superestimados. Se eles premiam algum filme – independente do país de origem – com a Palma de Ouro, é motivo de alvoroço e as expectativas são tremendas. Experimenta dizer que o tal filme não deveria ter ganhado ou que é ruim, para você ver. Você será taxado de burro e outras coisas mais. O cinema francês já se tornou moda e seguir essa tendência é significado de status e inteligência. Existem filmes bons em todos os lugares do mundo, e muitos que ganham o prêmio citado são realmente maravilhosos, mas os erros também estão aí. A maior prova disso é o próprio Oscar.

Mas vamos parar de falar mal dos cineastas franceses porque agora é hora de falar bem. Como eu disse, existem as exceções e eu não poderia deixar de fora dessa lista o incrível Jean-Pierre Jeunet. Esse cara é responsável por filmes sensacionais como Delicatessen e Amélie Poulain. Nem tudo são rosas e em sua filmografia está também Alien: A Ressurreição. Ninguém é perfeito. Mas parece que ele está de volta. Desde 2004 ele não filmava e desde 2001 ele não nos apresentava algo maravilhoso. Micmacs não chega a ser comparável aos dois filmes que mencionei, mas fica bem próximo. Quem conhece o estilo de Jeunet sabe que ele mistura a fantasia com a realidade de forma delicada, mas ao mesmo tempo magistral. Micmacs é mais real, sendo que o tom cartunesco está presente em detalhes pequenos e até no cenário como um todo. É fácil deduzir que naquele mundo as coisas são mais fáceis de acontecer e, quando acontecem, não geram prejuízos.

Bazil é o protagonista. Ainda quando criança ele perdeu o pai para a guerra que ao tentar desarmar uma mina terrestre acabou se explodindo. Teve que viver em um colégio interno por um tempo, até que resolveu fugir e construir sua vida. A perseguição da indústria armamentista era tão grande contra ele que 30 anos após sua fuga uma bala perdida encontrou sua cabeça. Bazil não morreu, mas os médicos decidiram no cara ou coroa o que era melhor a se fazer: deixar a bala alojada dentro de sua cabeça, pois assim ele poderia viver normalmente, mesmo que correndo o risco de cair duro a qualquer momento, ou retirar a bala e arriscar deixá-lo em estado vegetativo pelo resto de sua vida. Por sorte deu cara e ele pôde continuar vivendo, agora como uma bomba relógio ambulante. Só que pelo tempo distante de casa e do trabalho, as coisas complicaram. Bazil perdeu sua moradia, seus pertences e seu emprego. A única solução foi sair fazendo alguns números de rua pela cidade para ganhar algum trocado e se alimentar. Um dia, um senhor que vendia bugigangas o chamou e o apresentou à um grupo pessoas muito excêntricas que o acolheram e resolveram ajudá-lo a se vingar dos fabricantes de armas, que por coincidência tinham seus prédios próximos de onde ele vivia agora.

A arte do filme é belíssima. O elenco afinadíssimo. Dominique Pinon está mais irreverente que nunca! E Dany Boon, que eu não conhecia, soube dar vida a Bazil de forma excepcional. Não teve momento algum que eu me pegasse olhando para os lados ou me desviando do que se passava em tela. É impressionante como Jeunet consegue criar uma narrativa amarrada e presa em detalhes, nos fazendo não querer perder nada, além de nos divertir em várias situações. Eu não só recomendo que assistam, como indico a quem é colecionador que compre assim que pintar uma edição bem tratada. Vale muito a pena ter obras desse calibre em nossa prateleira.

Universo Alternativo é um blog de entretenimento (ou não), criado em meados de 2009 e, quando nada deu certo, foi morto e reinventado a partir do zero (em 2014) como se nada tivesse existido antes. Gerado diretamente do Caos (Caos), assim como seus irmãos Nyx (Noite) e Érebo (Escuridão), UA é a personificação dos universos paralelos existentes no Cosmos. Para um melhor entendimento sobre o assunto, indicamos o estudo de mitologias de um modo geral.

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