Eu, Lúcifer

(“I, Lucifer”, 2002, de Glen Duncan) E aí que outro dia eu estava passeando pelo Google Books, coisa que eu faço com uma considerável frequência, quando me deparo com o corajoso título de “I, Lucifer”. Obvio que, como pessoa que foi criada, alfabetizada e educada por Stephen King, senti na hora todas as lampadinhas do interesse se acendendo e me lancei em uma busca pelo livro.

Nesse romance, Deus resolve dar a Lúcifer uma segunda chance, oferecendo a ele um corpo humano durante o período de um mês: se ele conseguir passar esse mês sem causar nenhum mal permanente ao seu hospedeiro, ele poderá manter o corpo até o seu desaparecimento eventual. Ou, se ele viver virtuosamente e se arrepender, ele poderá voltar ao céu, apesar de não recuperar o seu estatuto angelical.

Lúcifer, que não está nenhum pouco a fim de redenção, resolve aceitar a oferta como um teste quando o que ele quer mesmo é um mês de férias.

Usando o corpo de Declan Gunn (um anagrama de Glen Duncan, o autor), um escritor com depressão que estava se preparando para cometer o suicídio, Lúcifer passa a levar um estilo de vida bem rock’n’roll, abusando de tudo que ele tem direito e escrevendo um livro – este livro – contanto em primeira pessoa sua versão dos fatos que resultaram em sua expulsão do céu.

Só não vá esperar uma história sangrenta com toques satânicos e macabros, porque o Lúcifer dessa história passa longe de ser um ser maligno. Divertido, irônico, meio egocêntrico, mordaz e terrivelmente pacífico, chega até a levar porrada em um momento da história! Nada condizente com a sua fama, mas como ele mesmo diz “tudo se deve a mal entendidos e a acusações injustas”.

Neste livro, você acompanha uma nova narrativa de muitos acontecimentos bíblicos e históricos: Adão, Eva e o paraíso; A forma como Deus criou o mundo; O porquê de Lúcifer ter se revoltado; A tentação de Jesus no deserto (Jr. segundo ele); O regime nazista; A inquisição; Seitas…

Mesmo sendo uma historia voltada ao humor (a escrita debochada é um dos maiores atrativos do livro) vale ressaltar que essa não é, nem de longe, uma história para crianças – sexo, drogas, palavrões… são temas freqüentes no livro – como podemos acompanhar desde o primeiro parágrafo quando Lúcifer se apresenta:

“Eu, Lúcifer, Anjo Caído, Príncipe das Trevas, Portador da Luz, Governante do Inferno, O Senhor das Moscas, Pai das Mentiras, Apóstata Supremo, Tentador da Humanidade, Serpente Velha, O Príncipe deste Mundo, Sedutor, Acusador, Atormentador, Blasfemador, e sem dúvida a melhor foda no universo visto e não visto (pergunte Eva, aquela safada) decidi- oo-la-la! – Contar tudo.”

E pode apostar, ele realmente conta. Altamente recomendado para pessoas de imaginação insana e língua solta.

4 Comments

Deixe uma resposta