500×1

Curiosamente Doutor, Tom Hansen estava mais uma vez coberto de razão. Novidade! Aliás se eu parar para analisar friamente minha vida é baseada em filmes, livros ou séries até mesmo quando não os conheço.

E desta vez eu estava preso dentro daquela sensação de querer ter tudo que tinha de volta e era algo tão forte que me cobria de dor e uma tal de saudade. Durante semanas me senti assim, no começo era porque havíamos acabado de terminar e com o passar do tempo eu me fechei, como uma concha protegendo sua maravilhosa ostra, e dizia que não mais sentia nada, a quem eu quero enganar?

É muito mais do que nítido em meu rosto o quanto eu ruborizo e amaldiçoou todos os deuses por ter de trombar com ele todas as terças feiras, de novo e de novo.

O fato Doutor, é que exatamente no dia 500 eu senti tudo aquilo de novo, tudo aquilo que eu jurava não mais poder sentir desta forma, e por mais que saiba que não vai me levar a nenhum lugar, e que estou preso dentro de uma fantasia inútil e infantil, tola e pretensiosa, acabei por descobrir Doutor que após um ano e meio, sou capaz de sentir tudo de novo. Estou quase vestindo meu traje e indo pra guerra novamente, mas o problema é que este Valete de Ouro está absorto com a sua nova, antiga, capacidade de amar e sentir-se vivo. Na verdade é como se eu tivesse a quinhentos dias sedento por água, andando naquela estrada de tijolinhos amarelos e de repente descobrisse que não sou nem o Leão nem tão pouco o Homem de lata, mas uma mistura deles todos.

Em determinado momento encontrei minha coragem de volta para arriscar, e meu coração recém consertado que agora é capaz de sentir a paixão novamente, mas como nem tudo são flores em minha vida, com uma descoberta desta claro que o diagnóstico de falha deveria vir em seguida e eu já esperava por isso.

Aqui estou, com um cigarro aceso pensando se devo ou não continuar minha jornada por esta estrada, agora que estou completamente diferente de a uma semana atrás, a sensação de poder estar me apaixonando justamente pela pessoa que eu talvez tenha culpado inúmeras vezes pelos desastres do meu até-então-relacionamento, erroneamente, me faz descobrir que não mais existe chão e o ar se torna completamente rarefeito.

Nesses poucos dias Doutor estou contando os minutos até receber uma mensagem e saio cantarolarando sozinho com o louro na sala de estar, nesses poucos dias eu fui capaz de dizer 500/1 motivos pelos quais irei parar de fumar, beber e começar a me exercitar. Descobri dentro de mim uma força: Amor, paixão, impulso, desejo ao mesmo tempo em que redescobri o que significa o respeito por alguém.

Mesmo à poucos instantes, quando frente a frente dele consegui controlar meu instinto predador de ataca-lo e beija-lo, pois não queria estragar tudo, mesmo que não saia como planejo pretendo aproveitar cada segundo em que estivermos próximos, cada momento em que minha pele congela e faz desse velho lobo esquentadinho um iceberg, cada um dos momentos singulares em que pequenos raios caem sobre minha pele ouriçando todos os pelos desde os pés até a nuca, pretendo mesmo aproveitar cada segundo desses que eu penso em várias formas de joga-lo contra a parede e apenas satisfazer todo meu desejo, minha sede de prazer, mesmo que só na minha cabeça.

Enquanto sinto o cheio de sua pele e me perco na imensidão azul de seus olhos que me olham com curiosidade, enquanto sua voz soa nervosa para poder fazer uma boa impressão e me remete a um cômodo fechado repleto de prazer, mesmo que esse cômodo seja apenas minha mente doentia e complexa.

Definitivamente Doutor, o Senhor Hansen estava coberto de razão e após todos aqueles dias de luto tudo recomeçou, e nem mesmo o senhor poderia prever um movimento tão audacioso desses, proveniente de mim certo?

Pulei do penhasco, de cabeça, pronto pra quebrar a cara. Com a armadura toda lustrada, armas em punho e um elmo reluzente.

E a partir de agora Doutor, entreguei na mão das parcas e que elas comecem a tecer novamente com fios de lã e não mais com arame farpado, ou que pelo menos elas consigam intercalar entre tudo.

Sinto muito.

Doutor,

Quantas vezes é possível que cometemos os mesmos erros? Tenho tido cada vez mais a consciência de que estou fazendo tudo da forma mais errada quanto possível, mas não sei em que estou me embasando, logo meus argumentos contra mim são impróprios e errôneos o que me deixa um pouco pior do que as últimas vezes que estive em seu antigo consultório reclamando do chá gelado e amargo da recepção. Da última vez que nos vimos lembro de ter tido uma crise de pânico na noite anterior e te ligar, lembro como se fosse ontem a sensação de vazio que tive, a perda gradativa da visão e o sufoco na garganta, a incapacidade de respirar em modo automático, o terror que eu tinha certeza que estava nos meus olhos enquanto eu gostaria de arrancar minha própria pele com óleo quente, lembro mesmo como se fosse ontem – se repetiu

Os motivos que acarretaram a crise assim como os sintomas foram os mesmos, a minha constante vontade de mudanças, de entrega, de crença, me provando que eu sou um dos últimos na terra. Acreditei que desta vez teria apreendi algo nas aulas de engenharia e não iria construir nada em solo arenoso, que grande falha a minha, amaciei o solo com expectativas e otimismo quando o mesmo era incapaz de fazer florescer o mais singelo pé de feijão – sim, este que nasce até mesmo em algodão. Semeei felicidade como de costume, mas no final, nada nasceu e eu acho que estou acabando com todo o meu estoque de sementes, doei algumas sacas para pessoas próximas – algumas tiveram sorte no plantio e não consigo deixar de sentir esse sentimento verde, pura inveja.

O fato Doutor, mais uma vez, é que estou perdido e como já de costume dividido entre alguns mundos, que infelizmente não são mágicos e nem trazem aventuras e nada parecido e para ser sincero andei tendo alguns picos de crescimento, desacreditando completamente das fábulas e contos de fada. Me divido entre o certo e o errado, mesmo sem saber a diferença entre eles. Me divido entre o amar e o sofrer, tendo certeza que escolho sempre as pessoas erradas – sempre. Me divido entre me dividir quando queria multiplicar, somar e nunca – nunca – subtrair, mas aparentemente as operações matemáticas simples tem evoluído e entrado em minha vida em constantes complicadas equações que nem mesmo Einstein preveria. E como resultado disto tudo, temos mais uma vez o desejo de fuga dessa realidade – frustração.

Me frusto ao nutrir sentimentos não correspondidos, aceitar o carcere única e exclusivamente por necessidade, por tentar a todo custo transmutar coisas impossíveis ao meu redor. Entrei novamente nos entorpecentes em busca de resultados eficazes contra a dura realidade que ando presenciando, mas parece que os efeitos se esvaem rapidamente desta vez, sinto cada vez mais o gosto amargo do desespero na boca, das expectativas que se criam de forma autônoma em minha cabeça por mais que eu saiba que tudo está ruindo, é como se elas fossem as únicas que sobreviveram ao apocalipse, mais resistentes até que as baratas, o senhor me entende Doutor?

Procuro, incansavelmente por uma saída, um atalho, uma companhia, um novo rumo – sem sucesso até agora.

Onde o senhor foi parar, porque nunca mais o encontrei?

Sinto falta de nossas conversas…

Sinto falta de mim mesmo…

Sinto falta do Sol…

Sinto falta do gosto doce das coisas…

Sinto falta….

Sinto…

Só sinto muito…

Completamente. Completamente Vazio.

Hey Doctor,

Faz algum tempo desde a minha última carta, tem sido tempos difíceis o senhor não acreditaria mesmo se eu contasse, tudo tem acontecido tão rápido, eu mal consigo entender a velocidade e intensidade disso tudo. Ao mesmo tempo em que me sinto completamente bem e leve, me sinto mal e pesado. É como o senhor sempre previu, minha bipolaridade ataca novamente, mesmo eu tendo deixado as drogas, ou melhor, os seus remédios para trás.

Me sinto muito perdido as vezes, como se tudo que eu buscasse fosse estupidez, o Senhor seria capaz de me compreender? As vezes sinto essa estranha vontade de correr até dar a volta ao globo, completamente, como se fosse possível a um mortal como eu. Entretanto existem momentos em que eu gostaria de sentar e observar o sol, a luz e calor que ele nos fornece, é realmente inacreditável toda essa minha plenitude as vezes.

Eu gostaria de entender sobre tudo isso, considerei de verdade estudar os seus ensinamentos e até ingressar numa faculdade de psicologia, mas lá não seria um bom lugar para mim, seria bem como o senhor sempre me dizia eu viraria apenas uma cobaia dos meus companheiros. Sou um baú cheio, e repleto, de traumas e sentimentos. Ora ou outra algum pula pra fora, como de costume.

Meu sorriso, de tão forçado começou a desgastar Doutor. Eu gostaria de encontrar novamente aquele elixir, maligno, do amor para estampar um sorriso real no meu rosto, mesmo que por pouco tempo. Eu andei procurando, ah como andei. Devo ter conhecido ao longo desses últimos cinqüenta dias cerca de mi corações, alguns intactos e outros tão despedaçados quanto o meu. Alguns enormes, outros tão pequenos que o Senhor necessitaria colocar seus óculos. Foram pessoas de mais, ou pessoas de menos? Nunca saberei.

Enquanto isso fico aqui, sentado contando estrelas. Sei que são infinitas, ao menos isso talvez seja, me assombra saber que algumas pessoas conheça todas elas pelos seus respectivos nomes, prefiro acreditar que isso não é real, bem como toda essa dor que se encontra em meu peito. Doutor, eu prefiro até mesmo acreditar que o Senhor está aqui, vivo.

Sinto sua falta,

Sinto minha falta,

Sinto falta dele, doutor.

Sinto tanta falta, que acho que estou completo novamente.

Completamente, vazio.

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